sexta-feira , outubro 30 2020

Tecnologias da Felicidade (1): o que estar conectado revela sobre ser feliz – Blog do Dunker

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Priscilla Du Preez/ Unsplash

“Considerando o conjunto, como você diria que as coisas estão indo: você diria que é feliz, muito feliz ou não muito feliz?” Esta foi a pergunta feita, ao  longo dos dez últimos anos, em 156 países no Informe Global sobre a Felicidade.  O balanço da década confirma uma tendência da qual já se suspeitava. A curva da felicidade sobe consistentemente entre 1991 e 2011 para cair de forma contínua e gradual, a partir de 2012 até 2019.

Adultos e adolescentes sentem-se menos felizes do que se sentiam em 2012. Indicadores de suicídio, depressão, abuso de drogas, obesidade e auto-violência, crescem depois de 2010, particularmente entre meninas e jovens mulheres. Ao menos quando se trata dos Estados Unidos, o dado não deixa de ser paradoxal, afinal, no mesmo período a taxa de criminalidade caiu, assim como o desemprego e a renda per capta aumentou.

Ao que tudo indica a nossa experiência de felicidade depende mais de como usamos nosso tempo de lazer e da percepção que temos do suporte social e familiar que nos envolve do que de parâmetros usualmente empregados para pensar a economia real.

Se levamos em conta que a economia já foi definida como a ciência geral da infelicidade este desgarramento confirma o conceito.  Também Freud já fizera uma grande partição nesta matéria sugerindo que nossa escolha ética básica, quando se trata de felicidade, separa aqueles que escolhem uma vida organizada pela fuga do desprazer e aqueles que trilham a via da busca do prazer.

Isso não deve ser lida como uma partição entre os consumidores vorazes do hedonismo imediatista contra os covardes encastelados no medo de perder. Na verdade, a via do prazer é a via da qualificação da satisfação, geralmente associada com seu adiamento. Compare o tempo gasto para obter prazer por meio de meia colher de heroína na veia contra o tempo gasto para apreciar uma orquestra sinfônica.

Esta oposição entre meios e fins deveria ser ponderada contra um segundo eixo representado pela relação entre o sujeito e o outro. Talvez seja por isso que o dilema do marshmallow, (comê-lo agora agora a ter uma recompensa “x” ou guardá-lo para mais tarde e ter uma recompensa “x + y”) nem sempre consegue ser replicado como experimento psicológico. Ele ignora que cada criança tem um potencial de satisfação em estar com os outros ou estar consigo mesmo, que contrabalança a tensão, bem estudada por Eduardo Gianetti[1]  entre o agora e o amanhã. Muitas vezes a excessiva ênfase na relação entre processos e resultados esquece que uma fonte segura de satisfação é a presença qualificada com os outros. Como e quanto você consegue realmente estar com os outros?   

Essa consideração ajudaria a contrabalançar a hipótese de que o grande vilão na queda do sentimento de felicidade seriam as redes sociais. É fato que o tempo livre, durante a última década foi consumido pelos smartphones e o início da curva descendente coincide com a disponibilização da banda larga e da expansão das redes sociais.

Adolescentes passam menos tempo com livros, com serviços religiosos e com amigos em função das mídias digitais. Os quatro campeões da indução de felicidade: dormir, esportes, interação social e trabalho voluntário, são todos “unplugged”, ao contrário dos quatro piores: ouvir música, internet, games e mídia social.

O Relatório Mundial da Felicidade de 2018 indicava que os escandinavos continuavam à frente, com a Finlândia na liderança geral, que o Brasil continuava caindo, mas aos poucos, e confirmando que os americanos continuavam cada vez mais infelizes, em proporção direta com sua melhora econômica.

Talvez a felicidade econômica tenha mais que ver com a escolha pelo princípio da fuga do desprazer ao passo que a felicidade relacional prenda-se aos que escolhem o caminho da busca qualificada pela satisfação. A economia, assim como a democracia, parece tornar-se um valor integrado à paisagem subjetiva, operando pela regra de que aquilo que um dia foi ambiciosamente desejado, torna-se obrigatório uma vez que foi alcançado e intolerável quando visto sob a perspectiva do retrocesso.

Por exemplo, o sujeito gasta muito tempo indo de ônibus para o trabalho e sonha em comprar um carro. Depois que ele consegue, sobrevém um grande momento de satisfação, mas em seguida começam as queixas com o trânsito e o sentimento de que a felicidade prometida é menor do que a felicidade alcançada.

A felicidade pelo consumo sofre deste paradoxo, por isso ela é tão temida por pais e educadores. Isso concorda também com a antiga consideração política de que a democracia é um valor ao qual se dá pouco valor, até que se a perde.

Rankings de felicidade costumam acentuar como a privação de condições objetivas para a qualidade de vida, como saneamento básico e mobilidade urbana, concorrem para a produção da felicidade. Isso parece ser mais forte quanto se trata da estratégia de fuga do desprazer. Quando ela começa a dar resultado, como no caso de um país em desenvolvimento, cedo ou tarde esta curva se confrontará com a curva da busca por satisfação mais qualificada. Daí em diante a busca por mais aquisições e resultados começa a perder em relevância para busca de experiências e excelências no que se faz e no que se é.

 Se nossa hipótese é pertinente deveríamos cruzar os dados obtidos pela dupla curva de busca da felicidade x fuga da infelicidade, que mediria a relação entre os processos e os “resultados” de uma vida, com a interpretação que fazemos da felicidade ou do sofrimento alheio, ou seja, de como estamos com os nossos outros e o quanto nos sentimos implicados na felicidade ou sofrimento deles.

Por isso o nível de confiança em estranhos, particularmente em espaço público, é um índice fiável de nossa posição de felicidade. Aqueles que tendem a interpretar o outro indeterminado como potencialmente perigoso, de quem temos que nos defender são mais infelizes. Por outro lado, aqueles que apresentam mais indícios de felicidade são também mais propensos ao engajamento político coletivo, como que a entender que este é um bem que aumenta conforme nós o distribuímos ou partilhamos com os outros.   

Processo análogo talvez ocorra ao longo da vida separando consistentemente padrões de felicidades entre crianças e adolescentes, ou entre adultos e idosos. Crianças são extremamente sensíveis à felicidade “ambiental” que as cerca, tendendo a sentir-se felizes se o coletivo que as envolve assim as percebe e assim se percebe. Adolescentes, ao contrário, descobrem que a individualização da felicidade é um problema que veio para ficar, mas ainda assim, em geral, apostam na busca do prazer e de uma felicidade mais exigente. Jovens adultos tendem a individualizar e minimizar suas felicidades, talvez em decorrência da individualização de seus resultados, que advém do mundo laboral. Idosos, finalmente aumentam suas exigências de felicidade relacional, muitas vezes lamentando o tempo perdido com os modelos anteriores.

 

[1] Gianetti, Eduardo (2014) O Valor do Amanhã. São Paulo: Companhia das Letras.

Fonte >Uol Tecnologia

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